Desconfie das ofertas de financiamento com taxa de juro
zero
Folha.com - SP - EM CIMA DA HORA - 06/08/2012
É público e notório que o consumidor brasileiro paga
taxas de juros extremamente elevadas nas operações de crédito , muito
superiores às praticadas em outros países. De repente, nos deparamos com uma oferta
"imperdível" para comprar uma TV em dez vezes sem juros! Ou então,
mais surpreendente ainda, comprar um carro e pagar em 24 meses com juro zero!!
Aqui entre nós, fica difícil acreditar que o mesmo
mercado que castiga o consumidor com a cobrança de juros tão elevados possa
oferecer uma condição tão generosa, não é mesmo? Qual é o mistério que se esconde atrás dessa oferta? Como
conferir se a oferta é verdadeira ou esconde condições que alteram o resultado
final da transação?
PREÇO À VISTA X PRAZO
Para comprovar se uma transação é feita, de fato, com
juro zero, verifique se o valor da mercadoria comprada à vista é o mesmo valor
da mercadoria comprada com o financiamento "generoso". Mas não basta
perguntar para o lojista. Pesquise muito antes de comprar.
José foi até uma concessionária, demonstrou interesse em
adquirir um carro novo, perguntou as condições comerciais e quais as formas de
pagamento disponíveis. O vendedor fez a oferta generosa que José estava
esperando. Entrada de 50% e 12 parcelas iguais, sem juros, de R$ 2.000. Fazendo
as contas, o preço do carro financiado será de R$ 48 mil. As 12 prestações
totalizam R$ 24 mil e a entrada, de igual valor, será de R$ 24 mil. José pergunta ao vendedor qual seria o preço do carro se
ele puder pagar tudo à vista. A princípio, o vendedor fez uma tentativa de
desencorajar a compra à vista porque deixaria de ganhar a comissão que a
financeira paga sempre que consegue uma operação de crédito. Quando percebeu que era a opção preferida por José e que
havia um concorrente na jogada, conversou com o gerente da loja e apresentou a
condição de R$ 46 mil para pagamento à vista. Aí está a revelação dos "juros" escondidos na transação:
o desconto de R$ 2.000, equivalente a 4,15% do valor a prazo, neste exemplo,
deixa claro que existe um preço diferente para pagamento à vista e outro para
pagamento a prazo. Se for verdadeira a oferta de financiamento com juro
zero, José deveria comprar o carro com entrada de R$ 23 mil e 12 parcelas de R$
1.916,66 cada uma. Oferta feita e recusada pela concessionária.
OUTROS CUSTOS
Fernanda quer comprar o mesmo carro de José, mas não tem
recursos para pagamento à vista. Dará 50% de entrada (R$ 24 mil) e pagará 12
parcelas de R$ 2.000 cada uma. Abre mão, portanto, do desconto de R$ 2.000. A concessionária não apresentou, com clareza e
transparência, como outros custos alteram o custo final dessa transação. Mais
tarde, ao ler as letrinhas pequenas no rodapé do contrato, Fernanda percebeu
que o custo do financiamento não seria zero como imaginava. Taxa de Abertura de Crédito (TAC): essa é a primeira taxa
que Fernanda pagou para que o agente financiador avalie sua capacidade
financeira de assumir essa dívida. Desembolsou R$ 800. Imposto sobre Operações Financeiras (IOF): imposto de 3%,
aplicável sobre algumas modalidades de financiamento, onera o valor da
prestação. No caso de Fernanda, o IOF foi de R$ 720. Custo Efetivo Total (CET): corresponde a todos os
encargos e despesas incidentes nas operações de crédito e de arrendamento
mercantil. Se excluirmos a TAC e o IOF, veremos que Fernanda financiou o valor
líquido de R$ 22.480 (24.000 - 800 - 720). Dessa forma, o CET da operação de
Fernanda foi de 1,02% ao mês, ou 12,97% ao ano.
DEZ VEZES SEM JUROS
É cada vez mais frequente a abordagem do comércio
varejista que anuncia, com grande estardalhaço, pagamento "em dez vezes
sem juros no cartão". Quando questionado sobre a condição para pagamento à
vista, o vendedor responde que o preço é igual e que nenhum desconto pode ser
concedido. É evidente que, também nesse caso, existe uma diferença
relevante entre receber o dinheiro todo de uma vez ou em dez meses. Alguém está financiando o lojista, cuja vocação é vender
mercadorias e não financiar o consumidor, tarefa que ele deixa para bancos e
financeiras, por exemplo. Nesse caso, quem financia a compra parcelada do comprador
final é a administradora do cartão de crédito , que aplica um desconto sobre o
valor da venda e entrega para o lojista, à vista, o dinheiro que ele precisa
para capital de giro. Muitas vezes, conseguimos um bom desconto para pagamento
à vista, desde que a forma de pagamento seja cheque ou dinheiro. O comerciante
deixa de pagar 10%, por exemplo, para a administradora do cartão e concorda em
conceder desconto de 5% a 10% para o cliente. Principalmente quando se trata de cliente conhecido da
loja, afastando a possibilidade de o cheque dado em pagamento da transação ser
roubado, devolvido por falta de fundos ou qualquer outro motivo que impeça o
recebimento. Moral da história: nada é de graça --não existe
financiamento sem juros. Planeje muito bem antes de comprar. Se você tem 50% ou
mais para dar de entrada, poupe um pouco mais e compre à vista.
Grande abraço!
Equipe Aano Seguros
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